Torcer o dedo é banal, e é justamente por isso que lesões ligamentares importantes passam despercebidas. O paciente enfaixa, espera passar, e meses depois aparece com o dedo instável, torto ou sem força.
Os ligamentos são as estruturas que dão estabilidade lateral às articulações dos dedos. Quando rompem, a articulação perde o batente que impedia o movimento excessivo. Algumas dessas rupturas cicatrizam bem com imobilização. Uma delas, em particular, não cicatriza de jeito nenhum sem cirurgia.
A lesão que não pode ser tratada como entorse comum
A lesão de Stener acontece no ligamento colateral ulnar do polegar, aquele que impede o dedo de abrir demais para fora. É típica de queda com a mão espalmada, de esportes com bola e de acidentes com a alça de bastão de esqui, origem do apelido antigo da lesão.
O que a torna especial: quando o ligamento se rompe completamente, ele pode retrair e ficar preso acima de uma estrutura chamada aponeurose do adutor. Com esse tecido entre as duas pontas, o ligamento perde qualquer chance de cicatrizar no lugar certo, por mais tempo que se imobilize. O tratamento é cirúrgico, e o resultado é melhor quando feito nas primeiras semanas.
O sinal que levanta a suspeita é instabilidade clara ao testar o polegar para o lado, associada a dor e inchaço na base do dedo após trauma. Mais detalhes em lesão de Stener.
Outras lesões ligamentares dos dedos
Entorse dos ligamentos colaterais
É a mais comum. O dedo dobra para o lado, dói na lateral da articulação e incha. Quando a ruptura é parcial e a articulação permanece estável, imobilização e reabilitação resolvem.
Lesão da placa volar
Ocorre quando o dedo é forçado para trás, típico de bolada na ponta do dedo. Dói na face palmar da articulação do meio e costuma deixar o dedo inchado por muito tempo, às vezes meses, o que assusta sem ser sinal de gravidade.
Lesão do aparelho extensor
Quando o tendão que estica a ponta do dedo se rompe, o dedo fica caído na ponta e não estica sozinho, quadro conhecido como dedo em martelo. O tratamento exige imobilização contínua e disciplinada.
Como diferenciar de uma torção simples
Estes achados sugerem lesão significativa e pedem avaliação:
- Instabilidade: a articulação abre para o lado quando testada.
- Incapacidade de esticar ou dobrar o dedo ativamente.
- Deformidade, desvio ou rotação do dedo.
- Dor intensa que não cede em poucos dias.
- Inchaço importante que persiste por semanas.
- Perda de força de pinça, principalmente no polegar.
A instabilidade é o achado mais importante. Um dedo que dói mas está estável costuma ter tratamento simples; um dedo instável quase sempre precisa de conduta específica.
Diagnóstico
O exame físico testa a estabilidade em cada plano e compara com o dedo do outro lado, o que é essencial porque a frouxidão varia entre pessoas. A radiografia investiga fraturas por arrancamento, em que o ligamento traz consigo um fragmento de osso. A ultrassonografia e principalmente a ressonância confirmam a ruptura e mostram se o ligamento está deslocado, informação que muda a conduta.
Tratamento
Lesões parciais com articulação estável são tratadas com imobilização por período definido, seguida de reabilitação progressiva. Vale saber que rigidez é a complicação mais comum dos dedos, então imobilizar por tempo maior que o necessário também prejudica.
Rupturas completas com instabilidade, ligamento deslocado ou fratura com desvio têm indicação cirúrgica. A reconstrução tardia é possível, mas o resultado é melhor no tratamento precoce, o que reforça a importância de não deixar a torção "para ver se passa" quando há instabilidade.
Perguntas frequentes
Dedo torcido que continua inchado depois de um mês é normal?
Inchaço prolongado é comum após lesão da placa volar e pode durar meses. O que não é normal é instabilidade, deformidade ou perda de movimento.
Dá para tratar em casa com esparadrapo no dedo vizinho?
Essa técnica ajuda em entorses simples e estáveis. Em lesão instável, ela mascara o problema e atrasa o tratamento certo.
Quanto tempo demora para curar?
Entorses estáveis melhoram em três a seis semanas. Lesões operadas exigem imobilização e reabilitação mais longas.
Ligamento rompido cicatriza sozinho?
Muitos sim. A exceção importante é a lesão de Stener, em que o ligamento fica preso fora do lugar e não tem como cicatrizar sem cirurgia.
Depois de qualquer trauma com instabilidade, deformidade ou perda de movimento, vale consultar um ortopedista de mão ainda nas primeiras semanas, quando as opções de tratamento são mais amplas.
Conteúdo atualizado em 27 de agosto de 2026.





